Chamada de Artigos: Cadernos de Literatura Comparada #40

2018-10-16

Vozes transatlânticas

O Atlântico literário em perspetiva

 

Entre as inovações nos estudos literários durante as décadas mais recentes, conta-se o interesse crescente por questões do universo empírico recorrentemente abordadas no âmbito literário. A tríade género, raça e classe, em linguagem mais contemporânea e teoricamente renovada, as sexualidades, etnicidades, pós-colonialismos e estudos culturais há muito se tornaram lugar comum tanto em obras de caráter marcadamente teórico como noutras especificamente de análise e crítica literárias.

Associada a essa abertura ao referente sob diferentes modalidades, assiste-se também a uma valorização de todas as dinâmicas que envolvem o espaço, motivada em grande medida pela perceção mundial ou globalizante do fenómeno literário, assim como pela vontade de o cartografar (Moretti), ou de nele reconhecer desafios e virtualidades geocríticas (Westphal) ou geopoéticas (Collot, White), nomeadamente a nível das porosidades entre diferentes planos.

A proposta teórico-crítica de uma área de estudo como o “Atlântico literário” (Moura/Porra, 2015) integra-se justamente nessa conjuntura geral. Por um lado, ultrapassa os confins de uma literatura nacional e da mera comparação entre quadros nacionais como se fossem blocos homogéneos claramente demarcados por fronteiras terrestes, funcionando antes como uma etapa intermédia entre o local e global. Por outro, ocupa-se de aspetos do “mundo real”, como sejam as relações coloniais e pós-coloniais, as trocas diaspóricas, as deslocações migratórias e as negociações identitárias, entre outras formas de intercomunicação humana.

É certo que a conceção do Atântico como unidade ou mesmo como metáfora de transnacionalidade começou a ser explorada após a 2ª Guerra Mundial, por historiadores franceses interessados nos temas do colonialismo e da escravatura, passando depois a captar também a atenção de outras áreas das ciências sociais e humanas. Todavia, a vertente intrínseca de travessia, trocas e transfert do oceano Atlântico, enquanto vasto e fluído referente não foi ainda suficientemente analisada, com algumas exceções como Paul Gilroy em The Black Atlantic: Modernity and Double Conscioueness (1993); Nancy P. Naro et alii em Cultures of the Lusophone Black Atlântic (2007); Joseph Roach em Cities of the Dead: Circus-Atlantic Performance (1996) ou Michael Malouf em Transatlantic solidarities (2009), que todavia se circunscrevem respetivamente à diáspora negra e ao universo britânico ou lusófono, a rituais culturais, à performance teatral e musical ou, no último caso, à literatura irlandesa e às Caraíbas anglófonas.

As próprias histórias literárias de base nacional têm por vezes explorado a ideia de diálogos transatlânticos, mas concentrando-se sobretudo em relações biunívocas e em espaços dicotómicos como Portugal-Brasil, Brasil-África, Europa-América Latina, entre outros pares possíveis.  

Ao propor aqui uma reflexão sobre um domínio como o transatlântico literário  (com um deliberado prefixo enfático), potenciado justamente por múltiplos contactos voluntários e/ou forçados e por vozes que extravasam das fronteiras e limites das literaturas nacionais,  estamos a integrar-nos  no caminho do “literary turn” dos Estudos Atlânticos (Gould, 2008), já encetado por outros investigadores (vd. Clavaron/Moura, 2012; Moura/Porra, 2015; Clavaron/Moura 2017), mas que continua a requerer mais e diferentes perspetivas, de molde a ser possível construir uma cartografia literária transatlântica plurilinguística, de cruzamentos vários e multipolares, aberta inclusive a sujeitos subalternos, no sentido pós-colonial do termo, que no passado mais ou menos recente tenderam a ser silenciados.

Mais do que considerar o oceano Atlântico ou os espaços adjacentes como cenários diegéticos, trata-se de explorar convergências ou especificidades, sinergias, trocas, cumplicidades ou conflitos que envolvam dinâmicas literárias, porventura em relação também com outras artes, entre diferentes polos atlânticos: europeu, africano, americano e caribenho, em línguas transnacionais como o português, o espanhol, o francês ou inglês.

Nesse sentido, convidam-se investigadores das áreas dos estudos literários e culturais a submeterem trabalhos que se inscrevam nesta perspetiva de um transatlântico literário     lusófono, francófono, hispanófono ou anglófono, analisando-o em especial a partir dos seguintes eixos:

- Circulações e dinâmicas estéticas transnacionais   

- Contactos culturais entre margens do Atlântico 

- Identidades/insularidades atlânticas e travessias

- Migrações e diásporas 

- Travessias e geografias imaginárias

- Cidades atlânticas

Os organizadores do nº 40 (junho 2019) dos Cadernos de Literatura Comparada (http://ilc-cadernos.com/index.php/cadernos), publicação periódica do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (www.ilcml.com)

Ana Paula Coutinho (ILCML – Universidade do Porto)

Leonor Simas-Almeida (ILCML – Brown University)

José Domingues de Almeida (ILCML – Universidade do Porto)

Patrícia Martinho Ferreira (ILCML – UMass Lowell) 

 

N.B.: Todos os artigos devem ser enviados, por email, para cadernos.peerreview@gmail.com até 15 de fevereiro de 2019.

(Caso o artigo não esteja de acordo com as normas de edição da revista (em anexo), os organizadores do volume poderão recusar o artigo, não o submetendo ao processo de blind peer review)