“Estes povos pastoris”: entre a aldeia de Vilarinho da Furna e a literatura de Miguel Torga

Palavras-chave: Vilarinho da Furna, Miguel Torga, topofilia, referencialidade, imaginário

Resumo

A aldeia de Vilarinho da Furna, localizada no extremo-norte de Portugal, foi uma das últimas aldeias comunitárias no país (ou seja, uma povoação de democracia concentrada com um regime de partilha de propriedade), funcionando como um símbolo das origens e dos valores puros das comunidades ibéricas seculares. O interesse cultural e etnográfico para com esta povoação intensificou-se durante e depois do processo de submersão da aldeia (1969-1972) pelo regime ditatorial da época.

A este propósito, considerar Vilarinho da Furna à luz da literatura de Miguel Torga (1907-1995), conhecida pela sua evocação de espaços geográficos e comunidades rurais, é extremamente produtiva de um ponto de vista geocrítico. Vários textos de Torga nos seus Diários refletem, e contribuem para, um sentimento de afeição e topofilia para com a comunidade de Vilarinho e o seu entorno natural, baseado no comportamento harmonioso dos aldeões e no valor simbólico da povoação. Para além disso, o conto “Barragem” (1951) transforma o espaço real daquela aldeia num imaginário literário, através da sua oscilação entre representação ficcional e referente geográfico real. Finalmente, pode-se afirmar que a literatura de Miguel Torga sobre Vilarinho influenciou, em certa medida, o próprio espaço geográfico da antiga comunidade, assim como a percepção cultural e a memória coletiva do lugar em questão.

Como Citar
Haysom, P. (2018). “Estes povos pastoris”: entre a aldeia de Vilarinho da Furna e a literatura de Miguel Torga. Cadernos De Literatura Comparada, (38), 247-270. Obtido de http://ilc-cadernos.com/index.php/cadernos/article/view/474