A literatura como arte do espetáculo

Palavras-chave: performance, malabarismo verbal, jogo, crioulo galáctico

Resumo

Numa crónica de 1972, escrita a propósito do inquérito “Literatura em Portugal. O que é? Para que serve?”, Maria Velho da Costa afirmou que “a boa escrita nunca é coisa do umbigo de cada um”, evidenciando desde logo uma apetência para o diálogo e para a abertura no texto de corredores comunicantes entre todos os que preferem o ato de escrever, no pressuposto de que, como afirma no mesmo passo, “preferir o ato de escrever é descobri-lo gostoso e eficaz”. Ver-se-á pelo conjunto da sua obra que o diálogo não se estabelece apenas ao nível da literatura, mas convoca diversas artes, línguas e registos discursivos.

O prazer, mas também o desafio de ler Maria Velho da Costa, residirá precisamente na tenacidade e na ousadia com que a autora vai integrando e cruzando no seu texto diferentes modos de dar a ler, bem como uma multiplicidade de referências intra, inter e transtextuais que fecundam o discurso e o transformam num “mistério glososo”, lúdico e performativo, que abre novas e muitas vezes inusitadas territorialidades semânticas.

As parcerias que a autora tem vindo a estabelecer com profissionais do cinema, do teatro, das artes plásticas e da fotografia atestam essa apetência para o diálogo interartístico, para o malabarismo verbal e para o jogo cénico, traçando o perfil de uma escritora ávida e atenta ao movimento do mundo e à sensibilidade dos que, criativamente, o vão dizendo.

Publicado
2020-09-20
Como Citar
Dias, M. J. C. (2020). A literatura como arte do espetáculo. Cadernos De Literatura Comparada, (42), 139-149. Obtido de https://ilc-cadernos.com/index.php/cadernos/article/view/674